quarta-feira, 29 de julho de 2020

Opinião: O mundo pertence aos que cooperam



Esse mundo existe?


Por Jean Sigel


O ano era 2015. A Escola de Criatividade fez parte da curadoria de conteúdo e experiência criativa para um grande evento da CNI (Confederação Nacional da Indústria), em Brasília. Auditório lotado com dois mil empresários para a fala do palestrante mais esperado e que encerraria o evento. Tratava-se do ex-presidente americano, Bill Clinton. Entre mensagens de otimismo e união dos empresários em meio a grave crise política e econômica que o país atravessava naquele ano, ele dava grande destaque a uma frase que citava quase como um mantra ao longo do discurso. “O mundo pertence aos que cooperam”. Nesse momento olhei pra minha sócia e cochichei ao ouvido: “Finalmente algum líder está falando uma verdade direta e corajosa a tantos empresários”.

Antes de encerrar sua fala, o ex-presidente fez questão de ressaltar que o melhor livro sobre política e estratégia lido por ele, “A conquista social da terra”, foi escrito por um entomologista americano, Edward Osborne Wilson, que fala sobre a forma como abelhas, formigas e o ser humano conseguem avançar em suas sociedades justamente por meio da cooperação.

A fala nos remeteu às tantas cooperativas de diferentes setores que atendemos com treinamentos e eventos e que possuem em seu código genético esse mundo no qual o ex-presidente se referia. Nesses anos todos muito próximo delas, desde cooperativas de crédito, saúde, agro e outras, chegamos a conclusão que não só temos ensinado, como também aprendido e muito com elas. Diria que uma troca cooperativa de sabedoria e propósito.

Desde que conhecemos esse mundo do cooperativismo, e das pessoas que cooperam por objetivos e propósitos comuns, nosso olhar em relação ao mundo do trabalho mudou completamente. A forma de atender e desenvolver nossos conceitos e projetos, evoluiu. Cada conteúdo, projeto ou treinamento novo teria que instigar mais colaboração, cocriação e ter o olhar de impacto do todo que as cooperativas sempre nos ensinaram.

Como não se encantar com empresas altamente eficazes que também se preocupam, na mesma dose, com seu papel na sociedade e como sua comunidade pode ser impactada positivamente?

Ou onde tudo que é produzido retorna de várias formas pra você mesmo e para a comunidade?

Como não aprender e se sensibilizar com um sistema que tem como princípios: a adesão voluntária e livre, gestão democrática, participação econômica dos cooperados, autonomia e independência, educação, formação e informação, intercooperação, e interesse pela comunidade? Princípios e valores que formam a razão de existir de um negócio, seguidos em todo mundo e que hoje se alinham inclusive com os objetivos do milênio da ONU para o desenvolvimento sustentável.

Como não ficar impactado com cooperativas que destinam boa parte de seus resultados a projetos socioeducacionais para crianças e jovens, como parte central de seu negócio, e não como ferramenta de marketing social conveniente e provisório feito por algumas empresas?

O que esperar de comunidades e regiões onde cooperativas estimulam e desenvolvem projetos voltados ao empreendedorismo e liderança da mulher e a temas sensíveis relacionados a preconceito, assédio, equidade e oportunidade? Ver jovens e experientes mulheres unidas em busca de conhecimento e atitude, nos cantos mais distantes do país é uma dose de otimismo na veia para uma sociedade mais igualitária.

Pois é. Esse mundo existe. Nesses anos todos atendendo cooperativas concluímos que é um mundo que dá certo e evolui, justamente pelo equilíbrio que propõe. Um mundo não apenas onde todos fazem parte por norma, mas onde todos se sentem parte verdadeiramente. Senso de pertencimento real, sem propaganda enganosa, que une a todos em torno de algo maior, entre gestores, colaboradores, cooperados e a população. Cresce e se desenvolve junto com as pessoas. É inovador e sensível a causas necessárias para o mundo. Pois sabe que a inovação depende de pessoas e que o crescimento só acontece quando colaboramos uns com os outros. Onde o impacto econômico e social é parte do negócio. É mais do que um sistema ou princípio.

Cooperar é um modo de ser e sentir. Um lifestyle bom de viver e trabalhar. E para acessar o portal a esse outro mundo, basta uma palavra mágica: cooperar.

O mundo pertence aos que cooperam.




*Jean Sigel é palestrante e co-fundador da Escola de Criatividade de Curitiba.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Troco Solidário do Fort Atacadista beneficia Associação dos Idosos de Ceilândia

A Associação dos Idosos de Ceilândia no Distrito Federal recebeu neste mês de julho o valor arrecadado pela campanha Troco Solidário que, junto aos clientes do Fort Atacadista, alcançou o valor de R$ 49.354,18. A arrecadação foi feita entre janeiro e junho deste ano.


Por conta da pandemia de Covid-19, a entrega do valor arrecadado foi feita de maneira simbólica, apenas com os representantes da instituição, com o objetivo de evitar aglomerações e seguindo todas as orientações de segurança sanitária.

“Esse novo cenário impõe desafios ainda maiores a todos e principalmente a essas instituições sociais, que dependem muito de apoio. O Troco Solidário cumpre sua missão em ser essa ponte que leva apoio e levanta a bandeira de que se todos se unirem em prol do bem comum, é possível fazer muito mais e ajudar aqueles que prestam serviços extremamente importantes a uma grande parcela da sociedade”, ressalta o gerente regional do Fort Atacadista em Brasília, William Lima.


A Associação dos Idosos é uma instituição voltada para o atendimento dos idosos de Ceilândia, no Distrito Federal. No local são ofertados cursos, atividades físicas, palestras, eventos culturais para promover interação entre os membros, assim como oferecer mais qualidade de vida aos participantes. Com a pandemia, as ações estão mais restritas, para evitar aglomerações e estão sendo oferecidas orientações de prevenção ao Covid-19 e distribuição de máscaras de proteção.

Troco Solidário - O projeto consiste na arrecadação de moedas que os clientes doam nos caixas das lojas quando fazem suas compras. O dinheiro é investido em benfeitorias de instituições, que são cadastradas, apresentando seu histórico, documentos, e são visitadas pela equipe para uma triagem. O Troco Solidário, realizado pelo Fort e pelo Comper, empresas do Grupo Pereira, desde 2007, já arrecadou mais de R$ 11 milhões de reais, que foram repassados para 300 instituições de caridade, impactando e promovendo a melhoria da qualidade de vida de mais de 250 mil pessoas, nos Estados em que o Grupo está presente.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Opinião:Tempos confusos



Se não souber falar, se tiver dúvidas, que o presidente se cale. Como na última semana

Por Fernando Henrique Cardoso

Tempos confusos os que temos vivido. A tal ponto que estranhamos o que aconteceu no meio da semana: chamou a atenção o fato de o governo não haver arranjado nenhuma confusão nova. Isso depois de, sem se dar ao luxo de explicar melhor ao País as razões, o presidente haver dispensado vários ministros nas pastas da Educação e da Saúde. Pelo menos até a última sexta-feira, quando escrevo este artigo, não demitiu ninguém ou ninguém se sentiu na obrigação de abandonar o Ministério. Nem mesmo se viu o presidente ou seus porta-vozes atribuírem à oposição ou a alguém mais notório o estar “conspirando”. Daí a calmaria. 

É assim que vai andando o atual governo, meio de lado. Sem que os “inimigos” façam qualquer coisa de muito espetacular contra ele, é ele próprio que se embaraça com sua sombra. De repente, quando não há nenhum embaraço novo, nenhuma “crise”, o presidente não se contém: fala e cria uma confusão.

É verdade que o governo federal não teve sorte. Não foi ele que criou a pandemia que nos aflige nem a paralisação da economia, que já vinha de antes. Mas a confusão política, desta ele se pode apropriar: foi coisa inventada pelo próprio presidente e seus fanáticos.

Por certo ela se agrava com a crise econômica e a da saúde pública. Mas o mau gerenciamento das crises e da política é o que caracteriza os vaivéns do governo Bolsonaro. No Congresso Nacional e nos tribunais (apesar de tão malfalados nos comícios pelos adeptos presidenciais) tem havido resistências à inação governamental e a suas investidas contra as instituições.

Comecemos pelo que mais importa, a saúde pública e a de cada um de nós. O governo federal desconsiderou os riscos da situação epidêmica no início e, depois, passou o bastão às autoridades locais. Compreende-se que sejam estas, mais perto das populações, a gerenciar o dia a dia. Mas o papel simbólico é sempre, para o bem e para o mal, de quem exerce a Presidência da República, tenha ou não culpa no cartório. Além disso é o que prescreve a Constituição, no seu artigo 23, sobre as competências comuns, entre as quais está a de zelar pela saúde pública, como deixou claro o Supremo Tribunal Federal (STF) em sua decisão a esse respeito.

Da mesma maneira é inacreditável que em tão pouco tempo o governo haja substituído dois ministros na pasta da Educação e que o País ainda não saiba quem será o próximo ministro. Os anteriores o pouco que fizeram foi suficiente para darmos graças por se terem afastado. Mas quem virá? E logo numa área crucial para o País.

Governo que não tem rumo nas principais áreas sociais dificilmente encontrará a lanterna mágica para nos levar a bom porto. Não são apenas pessoas mal escolhidas. É a falta de projetos, de esperança, o que nos sufoca. 

Talvez esteja aí a falta maior do presidente: ele fala como qualquer pessoa, o que pode parecer simpático. É um [ ]uomo qualunque[/ ]. Diz o que lhe vem à cabeça, como qualquer mortal. Mas esse é o engano: o papel atribuído pelas pessoas ao presidente, qualquer deles, exige que ele, ou ela, mesmo sendo simples (para não dizer simplório), não pareça ser tão comum na hora de decidir ou de falar ao povo sobre os destinos da Nação.

Em certos momentos muita gente no País pode até apreciar a semelhança entre si e o chefe de Estado. A maioria mesmo: pois não foi ele quem ganhou as eleições? Afinal o presidente, dirão, é uma pessoa como qualquer outra. Mas quando há crises é quando mais se precisa que haja comando, rumo. Talvez por isso os “homens comuns” no poder acabem por ser incomuns, singulares na sua incapacidade de definir um rumo. Quando têm personalidade autoritária, investem e esbravejam contra as instituições democráticas. No Brasil, elas têm respondido bem ao desafio. 

Onde iremos parar? Não tenho bola de cristal, mas é melhor parar logo. Se pudesse eu lhe diria: presidente, não fale; ou melhor, pense nas consequências de suas falas, independentemente de suas intenções. Sei que é difícil, afinal eu estava em seu lugar quando houve o “apagão” e também durante algumas crises cambiais. Não adianta espernear: vão dizer que a “culpa” é sua, seja ou não. E, no fundo, é sua mesma. Não se trata de culpa individual, mas política. Quem forma o governo (sob circunstâncias, é claro) é o presidente. A boca também é dele. Logo, queiramos ou não, sempre haverá quem pense que o presidente é responsável. Vox populi, dir-se-á...

É assim em nosso sistema presidencialista. E talvez seja assim nas sociedades contemporâneas. Com a internet as pessoas formam redes, tribos, e saltam as instituições. Por isso é mais necessário do que nunca que haja lideranças. Em nossa cultura e em nosso regime, já de si personalistas, com mais forte razão os líderes exercem um papel simbólico, falam pela comunidade. O líder maior é sempre o presidente, pelo menos enquanto continuar lá. Por isso é tão importante: se não souber falar, se tiver dúvidas, que o presidente se cale. Como nesta última semana. 

Melhor, contudo, é que se emende e fale coisas sensatas, que cheguem ao coração e façam sentido na cabeça das pessoas razoáveis. 


*Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e ex-presidente da república.

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